Entrevista no jornal “O Diário” de 19 de outubro de 2012

Entrevista na íntegra de Oscar Nakasato, vencedor do Jabuti com ‘Nihonjin’

Oscar Fussato Nakasato, 49 anos, é o primeiro maringaense a vencer o Prêmio Jabuti em uma categoria de ficção. Na noite de quinta-feira (18), a Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou os vencedores das 29 categorias da 54ª edição de um dos prêmios literários mais tradicionais do País. Seu livro “Nihonjin” (Benvirá, 2011, R$ 19,90) foi considerado pelo júri o melhor livro na categoria Romance, desbancando Domingos Pellegrini, Wilson Bueno e outros nomes consagrados da literatura nacional.

Escritor maringaense Oscar Nakasato vence o Prêmio Jabuti de 2012 com “Nihonjin”

Quando soube que era um dos finalistas na categoria Romance, Nakasato, atenciosamente, concedeu uma longa entrevista para mim, que objetivava publicá-la no D+, caderno de cultura do Diário de Maringá. Por falta de espaço, precisei resumir a publicação da entrevista, mas agora o leitor pode ler na íntegra e conhecer um pouco mais sobre a vida desse grande escritor. Leia:

-Primeiramente, nome completo, idade, cidade de nascimento, cidade e bairro atual onde mora, formação acadêmica e profissão.

OSCAR NAKASATO – Meu nome é Oscar Fussato Nakasato, completei 49 anos este mês (setembro). Nasci em Maringá, mas meus pais tinham um sítio em Floresta – PR, onde morei até completar 8 anos. A partir de então, passei a residir em Maringá. Atualmente resido em Apucarana, na Vila Agari, e sou professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Graduei-me em Letras na Universidade Estadual de Maringá depois de uma dolorosa experiência de dois anos e meio no curso de Direito. Também sou mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista.

-Breve histórico da sua biografia ligada à literatura.

Em 1999 fui premiado com os contos “Olhos de Peri” e “Alô” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul, que os publicou com outros três num volume que se chamou “Contos”. Em 2003, fui vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”, que também foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso. Em 2011, meu romance “Nihonjin” venceu o Prêmio Benvirá de Literatura e foi publicado pela Editora Saraiva. No mesmo ano, o romance dividiu o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota.

-Conte em detalhes como é seu dia a dia. O que faz durante a manhã, tarde e noite. É casado, tem filhos? Quanto tempo trabalha?

Ano passado, logo após ser anunciado como vencedor do Prêmio Benvirá, eu disse que minha prioridade é a docência, e em entrevista recente, mais de um ano após o prêmio e com uma vendagem expressiva de “Nihonjin”, reiterei essa condição. Minha rotina inclui as atividades da universidade, onde trabalho em regime de dedicação exclusiva, e as obrigações como esposo de uma mulher tão bonita quanto exigente e pai de dois filhos adolescentes e modernos. Além disso, atualmente dedico grande parte do meu tempo e da minha disposição para construir a minha casa, tarefa muito árdua para alguém com pouco talento para lidar com questões práticas. Pretendo escrever outros livros, mas construir outra casa, jamais.

-Como é o seu processo de escrita? Quantas horas escreve por dia, de que jeito, no computador mesmo, no silêncio, com a luz apagada, bebendo, fumando, longe do barulho, com a janela aberta, atolado de papeis de pesquisa, atolado de anotações feitas num caderninho etc?

Já tentei estabelecer uma rotina para escrever, mas não deu certo, pois não tenho disciplina. Como nunca entendi o ato de escrever como trabalho, não me sinto responsável para cumprir horários e metas. Por isso, às vezes passo um mês sem escrever, o que, contraditoriamente, me enche de culpa. Então corro até o computador e procuro me redimir teclando algumas linhas ou páginas. Às vezes interrompo a escritura para ler um parágrafo de Clarice Lispector ou de Guimarães Rosa, é uma necessidade de me iluminar. Gosto de escrever em computador com internet, pois quando tenho alguma dúvida, mesmo em relação a um vocábulo, faço a pesquisa imediatamente.

-O que te obriga a escrever? O que te incomoda ou surpreende a ponto de não resistir à feitura de um texto?

Às vezes o que me obriga a escrever é a sensação de culpa por estar há muito tempo sem escrever, outras vezes escrevo porque preciso logo traduzir uma sensação em palavras para de algum modo represá-la, pois tenho medo de perdê-la para sempre. Em geral escrevo porque tenho prazer no ato.

-De onde tirou a ideia do romance ‘Nihonjin’ e quanto tempo demorou para escrevê-lo?

“Nihonjin” nasceu de uma decepção. Quando iniciei a minha pesquisa sobre personagens nipo-brasileiros na ficção para a minha tese de doutorado, já sabia que não encontraria muito material, mas não imaginava que esses personagens fossem tão escassos. Então, antes de terminar a minha tese, já comecei a esboçar o romance, aproveitando as pesquisas que havia feito sobre a imigração dos japoneses no Brasil e o seu processo de aculturação. Passei por períodos de intensa produção e outros de absoluto recesso, levando cerca de quatro anos para terminar o romance.

– Para compor o personagem Hideo Inabata, inspirou-se em algum amigo ou familiar?

Hideo é, antes de tudo, um personagem de ficção, fruto de pesquisa em livros de História, Sociologia e Antropologia, mas vejo nele traços de alguns tios.

– Como é sua relação com o Japão? Seus pais nasceram lá, já foi para lá, aprecia a cultura?

Sou sansei, ou seja, sou neto de japoneses. A minha relação com o Japão ou com a cultura japonesa foi conflituosa na adolescência, quando passei por uma fase de negação das minhas origens. Nesse período procurava fazer amizade com quem não tinha ascendência japonesa e me interessava pela cultura ocidental. Depois me dei conta de quão ignorante eu era em manter tal postura e do quanto eu perdia em me afastar da cultura japonesa, descobri que o grande barato era exatamente ser essa mescla, esse ser híbrido. Então estudei língua japonesa no Instituto de Língua Japonesa da Universidade Estadual de Maringá durante dois anos, depois escolhi a análise de personagens nipo-brasileiros para a minha tese de doutorado. Espero, um dia, como o narrador de “Nihonjin”, ir ao Japão e sentir essa “ida” como um “retorno”.

-Você foi o vencedor do 1º Prêmio Benvirá de Literatura, tendo um livro considerado melhor do que outros escritos por 1.932 concorrentes de todo o Brasil com obras inéditas. Espera vencer? Como ficou sabendo do prêmio? Antes disso, ‘Nihonjin’ foi rejeitado por editoras?

Sempre acreditei em “Nihonjin”, por isso o enviei somente para grandes editoras, pois sei que as pequenas têm dificuldades em dar visibilidade às obras que publicam. O romance foi rejeitado por todas, e também não ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, do qual participei. Por isso, enviei os originais para o Prêmio Benvirá evitando criar grandes expectativas, mas ninguém participa de um concurso pensando que não tem nenhuma chance de ganhar. Um dia, ao chegar a Maringá após uma viagem a Goioerê, abri minha caixa postal e li duas mensagens, um do Thales Guaracy e outro do Luís Colombini, editores da Saraiva, ambos dizendo que tentaram entrar em contato comigo por telefone e que gostariam de falar sobre o Prêmio Benvirá. Meu coração começou a bater mais forte, disse à minha esposa que algo de bom estava acontecendo, que “Nihonjin” talvez tivesse sido premiado. Como era tarde, entrei em contato com eles por telefone no dia seguinte, e então anunciaram o prêmio. Abracei a minha esposa, senti uma paz muito grande, mas não pulei, não gritei. Fiquei feliz, simplesmente.

-Dentre seus concorrentes está ‘Herança de Maria’, de Domingos Pellegrini, que também foi vencido no Benvirá. Sabendo disso, acha que suas chances são maiores para vencer o Jabuti de melhor Romance?

De forma nenhuma. Após o anúncio do prêmio Benvirá, o Pellegrini entrou em contato comigo e humildemente me parabenizou. Mas veja, “Herança de Maria” também está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, do qual também participei, sem resultado positivo. Isso somente confirma que há um grau de subjetividade muito grande nos prêmios de literatura.

-Quais suas apostas, além da torcida para o próprio livro, tanto no romance como no conto e no infantil?

Há muitos autores que não conheço, mas os favoritos sempre são os nomes já consagrados. Espero que haja surpresas. Se fosse o “Oscar”, eu apostaria no meu concorrente Wilson Bueno, outro paranaense, pois seria uma forma de realizar uma homenagem póstuma, já que ele faleceu em 2010. Entre os contistas/cronistas, estou torcendo pelo Luís Henrique Pellanda, cujas crônicas acompanho no site “Vida Breve” (vale a pena conferir), mas o quase invisível Dalton Trevisan e a simpática senhora Lygia Fagundes Telles são grandes candidatos. Gosto do Fabrício Carpinejar (outro que escreve em “Vida Breve”), que concorre na categoria de Literatura Infantil, mas o Ziraldo também é candidato… De qualquer forma, cito esses nomes pelo conjunto da obra, pois ainda não li os livros que participam do prêmio.

-Ouvi uma história dizendo que você talvez pararia de escrever. Por que?

É uma estória, como diria o Guimarães Rosa. A Lygia Fagundes Telles, que está com 89 anos, diz que escreve todos os dias, e o Ignácio de Loyola Brandão, com 76, afirma que o ato de escrever o mantém vivo. Eu escrevo pouco, mas quero escrever até os cem anos.

-Só escreve romance ou gosta de contos, crônicas?

Sempre escrevi contos, pois sou conciso. Imaginava que jamais escreveria um romance. “Nihonjin”, ainda que seja breve, foi uma grande conquista. Tomei gosto, preparo um novo.

-Como é sua rotina dando aulas, o que sente, quais são os grandes desafios de se ensinar literatura?

Ensinar leitura e literatura em tempos de ditadura da imagem é um grande desafio. Recentemente li no jornal Rascunho a Márcia Tiburi dizendo: “As pessoas que lêem são mais interessantes, mais inteligentes, mais bonitas, mais bacanas, mais poderosas — são tudo. Quem não lê é um otário.” Achei espetacular o exagero! Mas logo me lembrei de várias pessoas que não leem e não são otárias. Ocorre que sempre julgamos sob um ponto de vista muito particular. De qualquer forma, tenho plena convicção de que a leitura, principalmente a boa ficção, torna as pessoas mais inteligentes, mais sensíveis e mais educadas. A leitura nos afasta da barbárie. E ter o texto, o romance, a poesia, como objetos de trabalho é um grande privilégio. Ser professor é um barato, um verdadeiro exercício de cidadania, pois, tendo concluído a Licenciatura em Letras e estudado tanto Literatura, é um dever partilhar o que penso que sei com os outros.

-Qual sua opinião a respeito dos prêmios literários?

Nunca houve no Brasil tantos prêmios, bienais, feiras e semanas dedicados à literatura. E os balanços das editoras demonstram que nunca o país vendeu tantos livros como agora. Faltam os leitores. É paradoxal, mas milhares de pessoas vão a esses eventos, milhões de livros são vendidos, e ainda há poucos leitores. Os prêmios literários, como essas outras atividades, promovem a visibilidade do produto livro, mas ainda se esforçam para promover a leitura. Não vejo, porém, que o caminho esteja errado. Aqui cabe o ditado: água mole em pedra dura bate tanto até que fura.

-Quais suas referências literárias? O que gosta de ler? Da sua leitura, o que te influencia na hora de escrever? Qual seu livro de cabeceira?

O meu livro de cabeceira é aquele que estou lendo, e ele está, agora, literalmente, sobre a mesinha de cabeceira, mas me acompanha aonde eu vou. É “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, uma leitura tardia de um romance que foi publicado em 1997. Não o escolhi, a Universidade Estadual de Maringá o elegeu como uma das obras do Vestibular, e me vi obrigado a lê-lo. É uma daquelas obrigações que se tornam prazer. Daqui a uma ou duas semanas, outro livro estará sobre a minha mesa de cabeceira, talvez um desses indicados para o Prêmio Jabuti. Leio muito, mas não somente ficção. Gosto muito de ler revistas e jornais, levo-os ao banheiro e me demoro mais que o necessário. A vida é mais que fazer necessidades. Gosto dos clássicos, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, e de alguns mais novos, como o Luiz Rufatto, cujo romance (que não é romance) “Eles eram muitos cavalos” me deixou perplexo. É assim, as influências vêm de diversas páginas.

-Quem, ultimamente, no Brasil e no mundo, estão fazendo literatura de respeito?

Não tenho autoridade nem condições para fazer essa indicação. Seria uma leviandade, pois não tenho lido suficientemente os escritores da atualidade, principalmente os estrangeiros.

-Morar no interior do PR atrapalha no sucesso de um escritor, mesmo ele tendo feito um livro premiado como o seu?

Atores e cantores que querem fazer sucesso geralmente vão a São Paulo ou ao Rio de Janeiro para ficar sob os holofotes, mas os escritores não precisam se projetar dessa forma, embora o comentarista de literatura Afonso Borges tenha observado recentemente em seu boletim Mondolivro, na rádio CBN, que os escritores, ultimamente, não podem ficar reclusos, pois precisam participar de mesas redondas e seminários nos diversos eventos literários que ocorrem no país. Rubem Fonseca e Dalton Trevisan precisam ser avisados dessa nova “revolução na vida dos escritores brasileiros”, como qualifica Borges. Manuel de Barros, festejado pela crítica, pela academia e por leitores fieis, segue vivendo muito bem no Mato Grosso do Sul. Hoje há escritores que vivem, sim, sob holofotes, mas não creio que essa condição seja essencial. No meu caso, eu pude participar do Prêmio Benvirá e realizar toda a negociação da edição do livro, incluindo a revisão que antecedeu a publicação, sem sair de Apucarana. Fui a São Paulo somente para receber o prêmio. Se eu morasse lá, daria mais entrevistas, participaria de mais eventos e, assim, “Nihonjin” teria maior visibilidade, mas creio que eu e meu romance podemos viver bem em Apucarana ou Maringá.

-Já viajou para onde divulgando ‘Nihonjin’?

Lancei o romance somente em São Paulo, na ocasião da premiação, em Maringá e em Apucarana.

-O que sua família acha da sua ascensão como escritor?

Logo após receber o meu prêmio, um tio de São Paulo veio a Maringá e trouxe um recorte de jornal com uma entrevista e uma fotografia. Esse fato revela a relação que se estabeleceu entre a minha família e a repercussão do prêmio e da publicação de “Nihonjin”. Todos sentem esse orgulho ingênuo de ver o nome de um familiar impresso nas páginas dos jornais, e isso me emociona. A minha esposa, que acompanhou mais de perto a minha trajetória e sempre me incentivou, agora compartilha as alegrias que “Nihonjin” me trouxe.

-O que espera para o futuro? O que ter feito uma boa história representou para sua vida? Acha que vai conseguir superar Nihonjin ou está com a síndrome de Raduan Nassar, que disse ter parado de escrever por achar não ter capacidade de escrever nada melhor do que Lavoura Arcaica.

Espero não ter o destino de Raduan Nassar, que, realmente, não escreveu nada de interessante após o belíssimo “Lavoura arcaica”. Há pouco tempo o Paulo Lins justificou os quinze anos que separam “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba”, lançado este ano, dizendo que o seu primeiro romance lhe custou tanto tempo e causou tanta tensão e desequilíbrio emocional que ele precisava descansar. “Nihonjin” não me cansou e não me desequilibrou emocionalmente, pelo contrário, me estimulou a escrever mais. Espero não entrar na paranoia de ter a responsabilidade de escrever algo melhor que “Nihonjin”.

-Fique à vontade para comentar o que quiser.

Já “falei” demais. Obrigado.

Trecho do romance “Nihonjin”

“_ Haruo, não seja impertinente! O espírito não conhece distâncias! E o nosso espírito é japonês!

Era isso que ensinava naquela noite aos vinte e poucos alunos amontoados num velho galpão de madeira. Meninos e meninas reunidos ao redor de mesas improvisadas com tábuas e cavaletes, sentados em longos bancos, com os cadernos repletos de hiraganas, katakanas e ideogramas. Hideo propusera-se a ser professor voluntário porque aquelas crianças, impedidas pelo governo de ir ao nihongakkō, não poderiam crescer como se fossem gaijins.

Os policiais chegaram sorrateiramente e, antes de invadirem o galpão, espiaram pelas frestas e viram as crianças sentadas, em silêncio absoluto, atentas ao que dizia sensei.

_ Esses japoneses fazem lavagem cerebral”, comentou um deles. “Crianças não se comportam dessa maneira.

Quando os homens entraram, Hideo não ofereceu resistência. Disse somente para que deixassem as crianças em paz e quis saber quem havia feito a denúncia. Os policiais, obviamente, não responderam. Recolheram todos os cadernos e dois livros do professor. Um menino tentou resistir, segurou firme o seu caderno, na outra ponta o policial, e os dois mediram forças, e cada um tinha a sua, a do braço e a da alma, e esta alimentava aquele, por isso a criança era quase homem, olhava o adversário como um igual, e o homem, que tinha a malícia que o menino ainda não alcançara, soltou de repente o caderno, e o menino foi ao chão. Hideo, que assistia à luta e via, orgulhoso, a força do menino, aproximou-se, então, disse-lhe em voz baixa que era verdadeiramente um súdito do imperador, ajudou-o a se levantar, pegou o caderno e o entregou ao policial, pois não adiantava resistir. Os alunos se encolheram num canto do galpão, algumas meninas choravam, todos emudecidos pelo medo.”

por: Wilame Prado

Link: http://blogs.odiario.com/wilameprado/2012/10/19/entrevista-na-integra-de-oscar-nakasato-vencedor-do-jabuti-com-nihonjin/

 

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Blog “Paisagens da crítica”: Nihonjin, de Oscar Nakasato

por Júlio Pimentel Pinto

10 janeiro 2013 por blog

 Nihonjin ganhou fama em meio a uma polêmica, a da inesperada e controversa vitória como melhor romance, no prêmio Jabuti de 2012.

Uma injustiça, a polêmica. Primeiro, porque autor e livro não têm qualquer relação com as peculiares e talvez injustas notas que seus concorrentes receberam. Segundo, porque Nihonjin é romance tão bom que constrange vê-lo submetido à prática brasileira das polêmicas ocas e narcisistas, tão distantes do debate intelectual e cultural que —esse, sim— deveria existir.

Nihonjin conta a história de uma família e cruza gerações: dos primeiros imigrantes japoneses ao narrador, neto que condensa aflições dos antepassados, as sintetiza e ultrapassa.

Não há, porém, qualquer intenção de relatar longa ou detalhadamente os percalços por que passaram os japoneses ao cruzarem o planeta e desembocarem em terras mais distantes nos hábitos, ainda, do que na geografia.

Oscar Nakasato, o autor, traduz, nos dilemas pessoais, o difícil enraizamento de cada indivíduo —tão mais difícil porquanto implica um improvável desenraizamento: extrair o Japão, um mundo todo outro, do corpo e da alma para imergir no Brasil.

A história da imigração surge, então, como o embate entre linguagens e sonhos incompatíveis, um diálogo impossível entre vozes que não encontraram correspondência possível no referente e no texto alheios, na paisagem e na cultura, que, já disse Lezama Lima, no fundo são a mesma coisa.

Nakasato também percebe que a narração de vidas tão vertiginosas —mesmo se, na superfície, pareçam miúdas ou baldias— não poderia prescindir da emoção, do lirismo nos gestos entre pais e filhos, entre mulheres tão diferentes, entre irmãos, entre neto e avô.

É verdade que o lirismo anda distante da ficção; ele parece viver em país estrangeiro e soa —quantos críticos já não afirmaram isso?— descabido numa época em que jogos de linguagem e artifícios se impõem, hegemônicos e ocasionalmente tirânicos, às muitas formas do cinismo literário.

Felizmente, Nihonjin não aceita se submeter ao cânone distorcido da atual ficção brasileira e investe num realismo complexo, que se associa às variações de vozes e perspectivas, à potência emocional da narrativa coesa.

Por tudo isso, e não só, é ótimo romance e merece o destaque que recebeu. Resta apenas que as pessoas leiam, sigam sua trama e —preconceitos deixados de lado— se permitam envolver na profundidade da história que conta.

Oscar NakasatoNihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011.

Link: http://paisagensdacritica.wordpress.com/2013/01/10/nihonjin-de-oscar-nakasato/

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Jornal “O Globo”: “Nihonjin”, de Oscar Nakasato

Nihonjin, de Oscar Nakasato. Editora Benvirá, 176 páginas. R$ 19,90.

Por José Castello*


“Nihonjin”, o primeiro romance de Oscar Nakasato – vencedor do prêmio Jabuti de 2012 em sua categoria – é, antes de tudo, um livro delicado, escrito com clareza e prudência. Através da saga de Hideo Inabata, um japonês que emigrou de Kobe, Japão, para trabalhar nas fazendas de café do interior de São Paulo, o romance relata, com elegância e sem excessos, a história da imigração japonesa para o Brasil, iniciada no alvorecer do século 20.

É um romance sutil, narrado com firmeza e sem qual qualquer interesse pelas ousadias estéticas. Um romance escrito como se todo um século – o de Joyce, Kafka, Faulkner – não importasse. Ao contrário: Nakasato (como ele mesmo declarou em entrevistas recentes) deseja, antes de tudo, contar uma história, resgatar um tempo que, embora recente, parece perdido. Neto, ele mesmo, de imigrantes japoneses, sua figura se mistura com a do narrador sem nome, neto do protagonista Hideo, que, com frieza e objetividade, recupera a aventura do avô e de seus descendentes.

Um romance simples que, fiel a um passado anterior à revolução modernista, no qual se ambienta, guarda a aparência de um álbum de recordações íntimas. Álbum composto não de fotografias, mas de relatos que têm como único objetivo registrar impressões e capturar nacos da memória. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como a morte de Kimie, primeira e frágil mulher de Hideo, que faleceu com a esperança de ver os cafezais paulistas cobertos de neve, um prudente Nakasato não se permite o extravasar das emoções. A contensão que caracteriza sua escrita se expressa neste breve trecho: “A morte chegou lentamente. Há quanto tempo morria? Tranqüila, congelada pela neve, congelada pelo sol”.

O romance expõe, de modo igualmente sereno, a luta entre duas visões de mundo: entre aqueles que, mesmo vivendo do outro lado do mundo, se mantêm fiéis ao culto do Japão Imperial, e os que, cientes de que o tempo não volta atrás, preferem se agarrar às coisas do presente. Movido, mais uma vez, pela ponderação, e fiel a sua estética realista, Oscar Nakasato não toma partido, nem usa a literatura para desfraldar bandeiras. Como um retratista calejado, limita-se a registrar imagens e a reproduzir relatos, sem desejo algum de neles interferir.

A opção de Nakasato pelo estilo seco e pelo equilíbrio evoca, de certa forma, a mística a respeito do temperamento japonês, que seria sempre criterioso (“zen”), sem se deixar abalar pelos extremos, e que se caracteriza por um comportamento comedido e protocolar. O protocolo realista domina, de ponta a ponta, Nihonjin, como se, para o autor, as palavras fossem apenas um instrumento para a captura do real. Como se, indiferente às turbulências do modernismo, ele escrevesse ainda agarrado às calças do avô.

Não se pode negar que há uma beleza nessa atitude. Em nossos tempos velozes, quando vivemos hipnotizados pelo futuro, ousar um vigoroso passo atrás não deixa de ser uma prova, senão de coragem, pelo menos de independência intelectual. A certeza de si rege o romance de Oscar Nakasato, um escritor discreto, que faz da timidez e da cautela o seu estilo.

*José Castello é crítico, escritor e colunista do Prosa. Leia mais textos do colunista no blog A literatura na poltrona

Link: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/11/30/resenha-de-nihonjin-de-oscar-nakasato-477057.asp

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Entrega do Prêmio Jabuti 2012

Entrega do Prêmio Jabuti 2012mio Jabuti

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03/12/2012 · 6:46 pm

Jabuti caseiro

Confiram matéria no jornal “O Diário”, de Maringá, sobre a indicação de “Nihonjin” como finalista do Prêmio Jabuti 2012:  Jabuti caseiro. download

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O filme “Corações sujos”

Ontem a Elzinete e eu assistimos ao filme Corações sujos, de Vicente Amorin. O que mais gostei? A atuação da atriz brasileira Celine Miyuki,  emocional na medida certa, sem descambar para o piegas. Esse também é o mérito do diretor, que levou às telas o livro homônimo de Fernando Morais, criando uma história necessária (afinal, não é um documentário) para recontar o conflito que dividiu os nipo-brasileiros no período pós-Segunda Guerra Mundial.  O próprio Fernando Morais disse que gostou da adaptação, com a criação de personagens femininos inexistentes no livro. Mas já que nesse transporte das páginas para a tela há essa liberdade, o roteirista e o diretor perderam a oportunidade  de explorar melhor  o tema que, para mim, é o mais caro nesse episódio do conflito entre os kachigumes (que acreditavam na vitória japonesa na guerra)  e os makigumes (que reconheciam a derrota do Japão): a dualidade do nipo-brasileiro, dividido entre dois mundos tão díspares. Embora a cena inicial,  com uma imagem de uma paisagem brasileira e outra com o Monte Fuji, sugira essa abordagem, o filme segue sem aprofundar a questão. Mas talvez esse seja o anseio de um nipo-brasileiro, não do público maior.

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Entrevista Rádio CBN

Autor maringaense do livro “Nihonjin”, vencedor do Prêmio Benvirá de Literatura, diz que a obra foi construída com personagens fictícios, mas a partir das experiências do escritor

Acesse: http://www.cbnmaringa.com.br/page/noticias_detalhe.asp?cod=204597

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