Revista “Aplauso”: A arte de ainda gerar boas emoções

Livros sobre a imigração no Brasil não são raridade. No entanto, só agora é possível dizer que parte da lacuna japonesa está sendo preenchida

Por Tailor Diniz*

De ficção ou não, livros sobre a imigração no Brasil não são raridade. Em especial da italiana, que também tem sido abordada no cinema e na televisão, com relativo sucesso. Aqui mesmo no Rio Grande do Sul, temos bons exemplos, o mais notório é o romance O Quatrilho, de José Clemente Pozenato, levado às telas por Fábio Barreto, e que concorreu ao Oscar, em 1996.

Da abordagem sobre os alemães pode-se dizer o mesmo, em ângulos diversos, nas páginas de vários autores – entre os destaques Videiras de Cristal, de Luiz Antônio de Assis Brasil, também levado às telas pelas mãos da mesma equipe de O Quatrilho. A lista é grande, e seria um lapso não lembrar Moacyr Scliar, que desde seu primeiro livro de ficção [O Carnaval dos Animais] tão bem retratou a chegada dos imigrantes judeus ao Rio Grande do Sul, suas dificuldades diversas de adaptação a um novo mundo de costumes, culturas e idioma.

Essa oferta de obras sobre a vida de cidadãos de outras nacionalidades que para cá vieram em busca de trabalho não ocorre, por exemplo, com os japoneses, lacuna agora em parte preenchida pelo primeiro romance do escritor paranaense Oscar Nakasato, neto de imigrantes japoneses, aportados no Brasil, durante a última metade da Segunda Guerra Mundial. Romance de segura abordagem histórica, Nihonjin tem como primeira qualidade a isenção de análise dos conflitos gerados pelas diferentes interpretações, pelos próprios japoneses, de sua identidade. Nesse particular, entra um ingrediente pouco considerado entre outros imigrantes, que é o aspecto físico.

A necessidade de preservar ou não essa identidade na sua raiz, suas idiossincrasias, sentimentos e ressentimentos advindos do conflito aí gerado, são a ponta de tensão da trama, que se inicia com um pontual castigo paterno a um filho tido então como rebelde, e culminam com a intolerância de um grupo radical que, por meio da força, se opõe a outro. São conflitos de violência explícita, de cuja existência, em especial nas colônias do interior de São Paulo, pouco se sabe até hoje. Como se dizer brasileiro com um aspecto físico tão característico, enfrentando a pilhéria de colegas de aula, o que hoje se chamaria bullying? Mas, de outra parte, como se comportar e viver como um japonês, fechado às tradições de seus antepassados, se nascido no Brasil e com a necessidade de ter uma terra como sua, de onde tirar o sustento, alimentando referências apenas na imaginação e no sonho distante?

Assim se desenvolve a narrativa, com o conflito sempre à flor da pele, ora tomando parte o filho que “se sente” brasileiro e desconsidera as tradições familiares, ora na consciência do pai que vê numa concessão desse naipe um perigo a rondar a esperança de um dia voltar à terra onde ficaram pais e irmãos. Esses dramas fogem ao círculo familiar e passam a alimentar o fanatismo de grupos rivais, que se dividem entre os considerados traidores da pátria [gaijins] e os seguidores das tradições [nihonjins]. As divisões começam quando chegam os filhos e netos, e estes passam a ver a pátria dos pais e avós de uma forma já distante, a partir apenas de relatos distanciados no tempo.

Embora o conflito maior de Nihonjin seja de identidade, questões comuns a todos os imigrantes da época não deixam de ser tangenciadas. Como a perseguição a cidadãos oriundos de países do chamado Eixo, alemães, italianos e japoneses – que, por determinação do então presidente Getúlio Vargas, não podiam, entre outras proibições, falar seu próprio idioma, fomentando entre a população local um clima de latente discriminação e hostilidade.

Mas Nihonjin, antes de tudo, é um livro belo, sensível, denso de humanismo e de compreensão dos fatos. O narrador da história é o neto do personagem principal, que, mesmo nos momentos de maior dor, se mantém isento, sem alimentar ressentimentos de qualquer natureza, e de espírito aberto às concessões, disposto sempre a entender, ao invés de julgar, as circunstâncias emocionais de uma decisão. Estamos, enfim, diante de um grande livro, de uma narrativa simples, que, ao final da leitura, nos faz respirar aliviados. Em Literatura tudo até já pode ter sido feito. Mas a forma de fazer, quando bem feita, ainda não perdeu a capacidade de gerar boas emoções. É o caso de Nihonjin.

*Tailor Diniz assina a coluna Livros na revista APLAUSO

Link: http://aplauso.com.br/2011/10/a-arte-de-ainda-gerar-boas-emocoes/


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2 Comentários

Arquivado em RESENHAS SOBRE "NIHONJIN"

2 Respostas para “

  1. tailor diniz

    Parabéns, seu livro é ótimo! Abraços.

  2. tailor diniz

    Fico feliz com o Jabuti. Acertei na mosca! Parabéns.

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